“Sou de Humanas”: Variação linguística provocada pela Convergência Midiática

setembro 28th, 2015 § 0 comments § permalink

milena

Gíria é um bicho muito curioso. Antes ela surgia sem que muitos dos seus adeptos soubessem a origem. A palavra “paquerar”, por exemplo, você sabe de onde veio? Aliás, quem hoje fala paquerar?

Atualmente as gírias e as variações linguísticas (os conhecidos “modos de falar”) surgem numa velocidade surreal por causa da internet. Um nicho que consome cultura pop na web sabe como surgiu o termo “senta lá, cláudia” e o utiliza em seu cotidiano. Mas como esses jargões se popularizam tanto ao ponto de serem incluídos no vocabulário?

A convergência midiática tem culpa nisso, mas ela não age sozinha. A convergência deixa de ser apenas um fenômeno tecnológico quando as pessoas interferem na mensagem, gerando novos códigos e representações culturais.

Em seu livro “Cultura da Convergência”, Henry Jenkins diz o seguinte:

“A convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais sofisticados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos cérebros dos consumidores individuais e em suas interações sociais com outros.”

A convergência midiática é um exercício muito praticado pelos veículos de massa junto com a transmídia. O episódio mais recente dessa combinação foi a divulgação, em primeira mão pelo Twitter, do vencedor da segunda temporada do MasterChef Brasil. Mas, pelo menos até hoje, as estratégias corporativas que envolvem convergência midiática não conseguiram interferir no modo de falar ou nos valores culturais da sociedade. Em contrapartida, os memes gerados sem qualquer intuito comercial são altamente influenciadores.

Um bom exemplo de convergência midiática “não-comercial” é a montagem feita numa matéria do SPTV sobre a preparação para o vestibular, que incluiu uma entrevista aleatória com uma garota chamada Milena que deseja “vender sua arte na praia”:

A viralização do vídeo ocorreu porque houve identificação com o comportamento ~zen~ da Milena, além da associação estereotipada de que estudantes e profissionais de humanas são chegados ~numa brisa~ e que adoram fazer miçanga. Está aí um prato cheio para que o termo “sou de humanas” surgisse como uma variação linguística:

Neste episódio da Milena, a convergência midiática obedeceu os seguintes passos:

1) Transformação da mensagem: a matéria original do SPTV sofreu alterações.

2) Identificação de um nicho: a fala da personagem e a maneira como ela diz fizeram com que um grupo pudesse se enxergar na Milena.

3) Pertencimento social: esta “identidade coletiva” é o resultado de membros que desejam ser aceitos em um grupo específico, no caso o da galera de humanas.

A convergência midiática ocorrida na transformação da mensagem gerou um novo código capaz de popularizar o jargão “sou de humanas”, que já existia há muito tempo porém não era tão mencionado na internet como agora. A audiência na web inclui novas variações linguísticas, enriquecendo o vocabulário e até ditando a próxima gíria que será adepta pela sociedade conectada. O negócio é tão sério que os veículos tradicionais sofrem interferências. A TV já adiciona nos textos das novelas esses novos “modos de falar” criados na web.

Acabou que o assunto da matéria do SPTV foi totalmente esquecido no meio desse auê em torno da Milena. Lógico que o meme gerado não tinha como foco a respectiva reportagem, mas é bom refletir que a convergência midiática quando sofre alterações pode causar (e muito) no comportamento da sociedade.

Os talentos enterrados de Gordon, da série Halt and Catch Fire

junho 20th, 2014 § 0 comments § permalink

Duas séries lançadas esse ano chamaram minha atenção por terem como tema “Tecnologia”: Silicon Valley (HBO) e Halt and Catch Fire (AMC). A primeira não consegui passar do primeiro episódio porque é um siticom tão bobo, que nem as tiradas sarcásticas e o discreto humor negro (meu preferido) conseguem salvar a trama. Respeito quem virou fã de Silicon Valley, mas não é pra mim.

Já Halt and Catch Fire me cativou pelo seu ritmo que não se arrasta, pelas identidades complexas dos personagens (por mais que isso soe clichê) e também pelo fato de que qualquer situação arquitetada alcança o ápice, capaz de trazer aquela sensação de que “agora fodeu”! Dessa vez não dá mais pra continuar com a história. Já pode encerrar a série. E olha que só foram ao ar 3 episódios!

Parece que o canal AMC quer beber um pouco mais da fonte de Breaking Bad, mas Halt and Catch Fire tem narrativa bem diferente da trajetória de Walter White, porém segue com o mesmo estilo cinematográfico de BB. A fotografia de HACF também é de se admirar, assim como era em Breaking Bad.

Resumidamente, Halt and Catch Fire acontece no início dos anos 80 quando surgem os primeiros computadores pessoais. Há uma empresa fictícia de software chamada Cardiff Electric que contrata um ex (e importante) executivo da IBM, Joe MacMillan (Lee Pace), um cara ganancioso que deseja se destacar no mercado desenvolvendo o mais potente PC para a época. Ele conhece a estudante fodona, porra-louca, drogada e prostituída (tá, exagerei. Mas é bem por aí o perfil dessa garota que eu já curti!) de TI, Cameron Howe (Mackenzie Davis), e que junto com o engenheiro de computação, Gordon Clark (Scoot McNairy), trabalham para o seguinte plano ilegal encabeçado por Joe MacMillan: quebrar a patente da IBM para copiar e “criar” um novo sistema bem mais rápido que o da sua concorrente, com o objetivo de lançar o primeiro computador pessoal portátil da Cardiff Electric.

A série menciona inúmeros termos técnicos. Pra começar com o título “Halt and Catch Fire”. Mas todas as nomenclaturas citadas, conhecidas por programadores, são compreendidas por leigos no decorrer da história com os insights que surgem nos contextos das falas. O personagem Gordon me estimulou a escrever esse post, pois a vida dele é o reflexo de muitos profissionais excelentes que nunca foram reconhecidos no mercado como tais.

Gordon não tem grana, é casado e pai de duas filhas pequenas. Ele gastou muito dinheiro para produzir um PC com o nome de Symphonic, mas foi um fracasso. Sua mulher é racional e acha um absurdo ele se meter em um novo projeto de computador pessoal, temendo que Gordon fique ainda mais sem dinheiro. O que pode interferir nas despesas da casa. O próprio Gordon não se acha tão eficiente assim, coisa que Joe MacMillan contesta porque admira a sabedoria do engenheiro frustrado. Gordon escreveu um artigo sobre arquitetura livre bem antes de existir a era open source. O cara é um visionário e nem se dá conta disso!

Todo mundo tem um projeto pessoal que nem sempre vai pra frente por alguns motivos. Geralmente por falta de grana, tempo ou pelas duas coisas juntas. Quando eu soube que Gordon criou um PC, logo lembrei das várias vezes que me peguei pensando que estou trabalhando tanto para os outros e que mal sobra tempo pra trabalhar pra mim. Ou então aceitar um job, um emprego ou participar de um projeto que vou ralar muito e que no final os louros vão para outra pessoa. É nesse caminho que Gordon optou andar, já que ele enterrou seus talentos na sombra de Joe.

Halt and Catch Fire não tem previsão (pelo menos por enquanto) de ser exibida no Brasil, mas o torrent tá aí pra isso! 😉

Neutralidade de Rede e Sponsored Data afetam (e muito!) a Publicidade

março 26th, 2014 § 0 comments § permalink

O Marco Civil foi aprovado na Câmara, muitos comemoram e outros nem tanto.

Por um lado é importante regulamentarmos a internet no Brasil, porém a atenção é dobrada quando abrem brechas para que o governo e especialmente a nossa presidente, que anda sendo espionada nas internets, tenham total autonomia para manipular a legislação do Marco Civil quando bem entender. Mas isso é assunto para outro post.

A Neutralidade de Rede é o ponto do Marco Civil que mais preocupa as empresas de telecomunicação e, em consequência, o mercado publicitário.

Resumidamente, Neutralidade de Rede regulamenta a igualdade de tráfego não discriminando o conteúdo ou o serviço, ou seja, sem a Neutralidade de Rede as empresas poderiam (hipoteticamente) vender pacotes dessa maneira:

Parece surreal, mas algo parecido já acontece no Brasil e em outros países! Algumas operadoras móveis oferecem acesso gratuito às redes sociais e, recentemente, o Bradesco autorizou que seus clientes pudessem fazer transações bancárias pela internet sem gastar seus planos de dados.

Corporações internacionais oferecem acesso gratuito a determinados serviços e esse fenômeno é chamado de SPONSORED DATA, que nada mais é que um acordo entre empresas e anunciantes para pagar pela transferência de dados de seus clientes. A respectiva prática já virou polêmica nos Estados Unidos com a AT&T. Parece vantajoso para o usuário, mas também quebra a concorrência porque é lógico que o consumidor vai optar pela empresa que oferece acesso de graça.

UMA COISA É CERTA: a Neutralidade de Rede será o principal motivo para que empresas de internet e telefonia decidam aumentar os preços dos seus pacotes, pois a hegemonia de tráfego impedirá que o mecanismo de Sponsored Data aconteça no Brasil.

Tá vendo como o Marco Civil é uma faca de dois gumes? O mercado publicitário terá que se adaptar de forma radical para agradar as empresas e ao mesmo tempo os usuários. Coisa que é impossível de acontecer.

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